terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

A loucura das moedas brasileiras

A economia brasileira sempre foi piada em todo o mundo. Mesmo aqui no Brasil, nossos pais e avós (e até alguns de nós, um pouco mais experientes) nunca entendíamos muito bem o que estava acontecendo. Volta-e-meia trocava-se o nome da moeda, cortavam-se alguns zeros, dividia-se o resultado por algum número maluco, enfim... O resto do mundo não entendia, porque pros EUA o dólar é sempre o dólar; pro alemão, o marco é marco desde sempre; o inglês tem suas libras desde os tempos mais remotos; só nós que, diferente do resto, vivíamos trocando de moeda. Ok, ok, outros países descontrolados também passam por isso. Até que em 1994 a coisa se equilibrou, e segue equilibrada até hoje. Pelo menos, por enquanto... A inflação está mostrando, novamente, suas garras. Esperamos que a atual equipe econômica tenha a competência daquela que, em 1994, estabilizou a economia do país.
Fiz um pequeno estudo sobre estas moedas todas, e decidi mostrar aqui pra todo mundo, até como forma de mostrar a loucura que era.
Desde o império até 31.10.1942 nossa moeda era os Réis. Quando passava de um milhão, viravam "Contos de Réis".
Em 01.11.1942 resolveram implantar uma moeda nova, com o mesmo padrão internacional, chamada Cruzeiro (Cr$). Tudo o que era em Réis, ou em Contos de Réis, foi dividido por 1000 para 'virar' Cruzeiro.
A inflação ainda não era muito severa, mas existia. Aos poucos, a situação econômica do país foi se agravando, os militares tomaram o poder e, em 1967, fizeram uma reforma na economia - um dos muitos "pacotes econômicos" que tivemos. Implantaram, então, uma nova moeda, o Cruzeiro Novo (NCz$), e tudo o que era Cruzeiro foi, novamente, dividido por 1000 para 'virar' Cruzeiro Novo. Três anos depois, tiraram o "novo" do nome da moeda, e ela voltou a se chamar, simplesmente, Cruzeiro.
Na década de 1980 o Brasil foi redemocratizado, mas isso não resolveu os problemas econômicos; pelo contrário, eles se agravaram. Em 28.02.1986 a moeda mudou novamente: passou a se chamar Cruzado (Cz$). O nome foi uma homenagem à antiga moeda portuguesa, da época da colonização. Dividiram tudo por 1000 novamente, para 'virar' Cruzado.
Teve congelamento de preços, um monte de palhaçadas Brasil afora, mas nada resolveu: em 16.01.1989 outro 'pacote' criou o Cruzado Novo (NCz$), e novamente se dividiu tudo por 1000.
Em 16.03.1990 Collor assume, e muda novamente o nome da moeda, ressuscitando o antigo Cruzeiro (Cr$). Só mudou o nome da moeda mesmo, sem outras alterações. Digo, sem outras alterações na moeda; no resto, até confisco de dinheiro do povo ele fez!
Algum tempo depois Collor foi cassado, Itamar Franco (seu vice) assumiu, e a equipe econômica apresentou-lhe um novo projeto para tentar estabilizar a economia. Era um projeto de médio prazo, e ele assumiu o risco. Assim, em 01.08.1993 a moeda passou a se chamar Cruzeiro Real (CR$), e tudo foi, mais uma vez, dividido por 1000. Mas isto já era parte do plano que viria no ano seguinte: em 01.03.1994 tudo foi transformado em URV (Unidade Real de Valor), que foi meio que uma "dolarização branca" da economia. Lembro que, no dia-a-dia, as pessoas já negociavam apenas em dólar: compravam-se os bens em dólar, negociava-se tudo em dólar, e só se usava a moeda brasileira para efetuar o pagamento - isso quando a gente não tinha ido à casa de câmbio e comprado dólares mesmo... Fiz muito disso àquela época. Mas este plano, diferente de todos os outros, foi anunciado antecipadamente, e conseguiu-se mobilizar a população, os empresários, o mercado em geral. Ninguém mais aguentava tentativas malucas, e todos estavam interessados em fazer algo que, definitivamente, resolvesse nosso problema econômico. Só o povinho do PT era contra... Enfim, em 01.07.1994 criou-se uma nova moeda que tinha o valor da última URV - era como se, guardadas as devidas proporções, o dólar fosse adotado como moeda oficial, só que com outro nome: Real (R$). Este foi o último grande pacote econômico brasileiro: desde então temos uma economia equilibrada, ou pelo menos razoavelmente equilibrada.
Para ter uma ideia do poder corrosivo da inflação, veja o que aconteceu com o dinheiro brasileiro neste tempo todo:
Imaginemos que no início de 1967 alguém tivesse 2 quatrilhões e 750 trilhões de cruzeiros em casa (Cr$ 2.750.000.000.000.000,00):
Em 13.02.1967 foi transformado em 2 trilhões e 750 bilhões de cruzeiros novos (2,75 quadri dividido por mil = NCr$ 2.750.000.000.000,00). Ele correu ao banco e trocou seus cruzeiros por cruzeiros novos.
Em 15.05.1970 passou a se chamar 2 trilhões e 750 bilhões de cruzeiros (Cr$ 2.750.000.000.000,00). Como só mudou o nome, ele não precisou ir ao banco trocar nada.
Em 28.02.1986 foi transformado em 2 bilhões e 750 milhões cruzados (2,75 tri dividido por mil = Cz$ 2.750.000.000,00). Pronto: ele correu novamente ao banco e trocou seus cruzeiros por cruzados.
Em 16.01.1989 foi transformado em 2 milhões e 750 mil cruzados novos (2,75 bi dividido por mil = NCz$ 2.750.000,00). Outra corrida ao banco para trocar o dinheiro, substituindo os cruzados por cruzados novos.
Em 16.03.1990 passou a se chamar 2 milhões e 750 mil cruzeiros (Cr$ 2.750.000,00). Não precisou trocar as notas, porque só mudou de nome.
Em 01.08.1993 foi transformado em 2.750 cruzeiros reais (2,75 milhões dividido por mil = CR$ 2.750,00). Ele teve, novamente, que ir ao banco, substituir as notas de cruzeiros pelas notas de cruzeiros reais.
E, por fim, em 01.07.1994 foi transformado em 1 real (CR$ 2.750,00 dividido por 2750 = R$ 1,00). E ele voltou ao banco para trocar suas notas por uma moedinha de um real...
Ou seja, o que valia quase 3 quatrilhões há 43 anos atrás, chegou ao final de 1994 valendo 1 real. Se considerarmos a inflação que ocorreu depois disso, deve valer, hoje, uns 20 centavos...
Vou tentar resumir este negócio todo:
01.01.1967: Cr$ 2.750.000.000.000.000,00
13.02.1967: NCr$ 2.750.000.000.000,00
15.05.1970: Cr$ 2.750.000.000.000,00
28.02.1986: Cz$ 2.750.000.000,00
16.01.1989: NCz$ 2.750.000,00
16.03.1990: Cr$ 2.750.000,00
01.08.1993: CR$ 2.750,00
01.07.1994: R$ 1,00
É uma loucura, concordo. E, se a equipe econômica atual não tomar os devidos cuidados, é perigoso esse monstro todo acordar novamente, e voltar a desvalorizar nosso rico dinheirinho...

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